Samanta tinha
21 anos, era feliz e realizada, mas no fundo da sua alma, ela e ainda tinha
esperança de encontrar seu pai. Sua mãe havia engravidado em uma festa, no
término do colegial, em uma noite de bebedeira e muito sexo. Os rapazes haviam
colocado drogas nas bebidas que serviram às meninas, sem que elas soubessem.
Tudo havia sido combinado antes entre eles, para conseguirem fazer sexo com
tantas quantas pudessem, sem que elas se lembrassem depois. A mãe de Samanta, Maria
Clara, estava na festa e como todas as outras adolescentes, não lembrava
direito o que havia acontecido, até encontrar um bilhete no bolso do seu casaco,
dois dias depois. O bilhete não dizia muita coisa, mas foi o suficiente para
abalar a estrutura da adolescente.
“Você é tão
bela como a Lua e eu não poderia permitir que alguém mais a tocasse, além de mim,
então eu a protegi. Você foi só minha a noite toda e eu casaria com você se
meus pais não tivessem planos mais ousados para mim. Nunca vamos nos
reencontrar, acho até que você nem se lembra de mim. Desde que a vi chegar na
festa, não consegui ver mais ninguém. Guardarei o seu sorriso e o seu cheiro
para sempre comigo. Desculpe-me por possuí-la sem a sua permissão. Você era
virgem. Não me enganei, quando senti que você era diferente das demais. Desejo
sucesso na sua vida. Adeus!”
Logo
após saber o que havia acontecido naquela noite, Maria entrou em contato com as
amigas para tentar descobrir quem era o autor do bilhete, mas as meninas estavam
mais preocupadas em se preparar para as férias do que com a virgindade dela e
com o passar dos dias, Maria acabou se conformando com o ocorrido. Decidiu não
falar nada para seus pais, pois eles, como sempre, não acreditariam nela. Maria
Clara guardou aquele bilhete como se fosse um tesouro, pois pensou que um dia
encontraria o “dono” daquelas palavras. Uns 40 dias se passaram após o término
das aulas, quando Maria começou a sentir tonturas e enjôos matinas. Eram os
primeiros sintomas da gravidez. Uma gravidez nada planejada, e pior, sem que
ela se lembrasse da noite em que tudo se deu. Maria Clara não se deu conta do
que estava acontecendo e então, sua mãe a levou no médico e após alguns exames
o resultado foi positivo. Os pais de Maria nunca acreditaram na história do bilhete
e da festa, forçando-a a contar quem era o pai da criança, mas com o tempo
desistiram e decidiram aceitar a idéia de terem um neto. Fizeram um acordo com
Maria, quando a criança nascesse ela a amamentaria e depois iria para a
faculdade e Maria concordou, pois não aceitou fazer um aborto. Na verdade Maria
Clara havia se apaixonado por um fantasma e todas as noites ela relia o bilhete
e sentia aquele homem tão perto de si, como se o conhecesse. Ela imaginava seu
rosto e assim, sonhava com ele.
Quando
Samanta nasceu, Maria a entregou para sua mãe, ainda no hospital dizendo: _
Cuida dela pra mim como se fosse sua filha? Eu vou pra faculdade mãe e não quero
que ela saiba que sou a mãe dela, por favor, cuida dela pra mim?
Dona
Leonor pegou a pequena menina nos braços e disse que ela se chamaria Samanta e
com os olhos cheios de lágrimas e já sentindo um amor enorme por aquela
criança, decidiu que cuidaria dela, mas que jamais tiraria de Maria Clara o
direito de ser mãe dela.
Os
anos se passaram e a pequena Samanta cresceu. Aos 8 anos de idade e com
maturidade o suficiente pra entender que ela não tinha um pai, decidiu
questionar a todos sobre o assunto. Enquanto ela era pequena, havia sido fácil
enrolá-la, mas agora era preciso contar a verdade. Mas que verdade, se ninguém
sabia da verdade? Os pais de Maria nunca acreditaram nela e ela não se lembrava
de nada sobre a noite que engravidou, então, o que dizer para Samanta? Que sua
existência provinha de um conto de fadas? Dona Leonor ligou pra Maria Clara,
que a essa altura estava formada e trabalhando em outra cidade, que a hora de
revelar o segredo havia chegado. Maria Clara viajou até a casa dos pais no
final de semana seguinte e em uma tarde ensolarada contou a verdade para a pequena
Samanta entregando-lhe o bilhete, que até então, ela guardava consigo. A menina
não entendeu muita coisa, apenas que não tinha um pai e que nem sua mãe sabia
quem ele era. Samanta guardou o pequeno bilhete no meio de um diário com uma
pequena chave, como se fosse um tesouro, escrevendo no verso: “Um dia vou te
encontrar papai!”
No
domingo à tarde Maria Clara precisou voltar para casa, mas um grave acidente de
carro tirou sua vida instantaneamente. Ela era a única filha de Dona Leonor e
seu Joaquim e como era desejo de Maria, Samanta, virou a única razão para que o
casal continuasse lutando pela vida.
Samanta
sempre foi um exemplo de criança. Cresceu recebendo uma excelente educação e quando
entrou para o colegial, decidiu que queria ser enfermeira, igual sua mãe e após
três anos de muito estudo, ela passou em um dos vestibulares mais concorridos,
pois queria estudar em uma universidade federal e foi o que aconteceu. Alguns
dias antes de começar as aulas, seu Joaquim e Dona Leonor a levaram para
conhecer o pensionato para moças onde ela moraria nos próximos 4 anos. O lugar
era muito acolhedor e de imediato, Samanta se sentiu em casa.
O
velho casal voltou pra o interior, mas seu coração ficou na capital, junto com
Samanta, que se adaptou rápido a nova vida e apesar de ter sido criada em uma
cidade pequena, fez muitos amigos, tanto na universidade, quanto no próprio
pensionato.
Samanta
achou o primeiro ano de faculdade muito fácil e não via a hora de acabar as férias
para voltar pra capital e recomeçar os estudos. Mesmo sendo muito focada no que
queria, Samanta começou a se descobrir como mulher. Com 18 anos de idade, ela
nunca havia prestado muito atenção nos homens que a rodeavam. Alguns até pensavam
que ela fosse “lésbica” e ela ria dos comentários. Durante os dois meses que
passou com seus avós, ela não saía da frente do computador e não largava o
celular. Parecia que suas amigas estavam ali no quarto com ela, pois interagiam
o tempo todo. As férias acabaram e Samanta voltou para a universidade. Durante
os três primeiros anos de estudo, Samanta namorou alguns garotos, mas não conseguia
levar nada adiante. Dizia que eles eram infantis demais e que só namoraria
sério quando encontrasse um homem de verdade e foi o que aconteceu. No início
do último ano da Faculdade, Samanta foi fazer estágio em um hospital público.
Em seu primeiro dia de trabalho, quando foi até a cantina do hospital para
almoçar, junto com suas colegas de estágio, Samanta ficou sem fôlego quando viu
um médico se sentando na mesa ao lado. Na verdade as 4 meninas o notaram, mas
decidiram que ele seria de Samanta, pois era velho demais para elas e todas
riram da brincadeira. As gargalhadas chamaram a atenção dele, que sorriu olhando
direto para Samanta. Ela ficou sem graça e envergonhada. Entre uma garfada e
outra, as trocas de olhares continuaram até ele se levantar e levar sua bandeja
ao balcão. Samanta o seguiu com os olhos e quando ele estava quase saindo da
cantina, ele parou e voltou até a mesa delas. O médico, que aparentava ter
quase 40 anos, parou em frente à mesa delas e retirou da carteira um cartão de
visita, entregando-o a Samanta. Enquanto ela pegava o cartão ele disse que era
para o caso de ela ter algum problema cardíaco, já que ele era cardiologista. As
4 jovens ficaram sem ação perante a situação e assim que ele se afastou
começaram a rir, enquanto Samanta olhava para o cartão.
O
romance entre Samanta e Paulo Henrique foi fulminante. Ele estava em um
divórcio conturbado e encontrou nela a fuga perfeita dos problemas. “Ela é
incrível”, dizia ele aos seus amigos. Sempre que podiam eles estavam juntos e
Samanta quase não ficava na pensão, mas omitia isso de seus avós para não
preocupá-los. Ela ajudou Paulo Henrique a mobiliar o apartamento e a comprar as
coisas que faltavam. Quando tinham tempo disponível, Samanta fazia questão de
cozinhar para ele. Os meses se passaram e antes de concluir o curso, Samanta já
estava morando com Paulo e o conto de fadas estava se tornando realidade. Paulo
Henrique a transformou em uma mulher, lhe ensinando tudo sobre sexo e a
diferença de idade não significava nada para eles. Procuravam não falar do
passado e Samanta nunca lhe contou sobre seu pai ou a morte de sua mãe, dizia
apenas que os pais haviam morrido em um acidente de carro e ele não a
questionava a respeito. O ano chegou ao fim e com ele os estudos de Samanta que
por ter sido a melhor aluna da turma já estava contratada pelo hospital onde
Paulo Henrique fazia plantão uma vez por semana e ela havia feito estágio. A
formatura seria no mês de fevereiro, mas pra surpresa de Samanta, ela descobriu
que estava grávida 10 dias antes e decidiu guardar a surpresa para a noite do
baile. A noite tão aguardada chegou e enquanto Samanta terminava de se arrumar
no closet, Paulo sentiu que precisava cortar uma unha que estava lhe incomodando
e na tentativa de encontrar um corta unhas em meio as coisas de Samanta, ele
encontrou o pequeno diário, que após tantos anos já não tinha chaves. Em meio a
sua curiosidade sobre um objeto tão antigo, ele o abriu e deixou cair o pequeno
bilhete. Após pega-lo do chão do quarto, ele o leu. Quando Samanta entrou no
quarto e viu ele com o diário nas mãos, ficou sem jeito, pois não queria lhe
explicar sobre aquilo na noite mais feliz de sua vida, foi quando ele olhou pra
ela e disse: “Eu escrevi isso.”
- Silvana Hennicka!
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